E
por falar em...
"Joãozinho da Goméia"
Pai-de-santo gerou polêmica, nos anos 50, ao assumir o homossexualismo
e criticar famosas ialorixás.
Não era por ele ser homossexual. O que mais chocava o povo-de-santo
daquele tempo era mesmo a ousadia do babalorixá Joãozinho
da Goméia, nascido João Alves Torres Filho, em Inhambupe,
em 1914. Ele desafiava a opinião pública ao dançar
na noite em cabarés ou desfilar vestido de mulher, como fez
no Carnaval de 1956. E quando o assunto era candomblé, o
sacerdote não deixava por menos: era capaz de questionar,
publicamente, qualquer ialorixá famosa do país. Desta
forma, ganhou a mídia e, até a sua morte prematura,
em 1971, virou referência para o culto afro, especialmente
no Sudeste do Brasil.
Rei
transgressor do candomblé
Joãozinho da Goméia fez história ao assumir
publicamente a condição de homossexual.
Uma figura exuberante entra no baile do Teatro João Caetano,
no Rio de Janeiro. Plumas na cabeça, maquiagem no rosto,
maiô justinho ao corpo, sapato de salto plataforma, pernas
bem torneadas, envolvidas por uma meia-arrastão. O pai-de-santo
Joãozinho da Goméia vestiu-se para brilhar no Carnaval
de 1956, fantasiado da vedete Arlete. Os flashes dos fotógrafos
pipocavam à sua passagem. Mas o sucesso da fantasia não
foi unânime. Os umbandistas cariocas e as mães-de-santo
mais tradicionais da Bahia ficaram indignados com a ousadia do babalorixá
(pai-de-santo). Para eles, um sacerdote não podia se expor
dessa forma, em pleno Carnaval. Joãozinho não ligou.
"Serei eu, porventura, o primeiro Adão com o vestido
da costela que apareceu no Rio de Janeiro?", respondeu, irônico.
Ele não deixava de fazer o que queria por medo de cara feia.
Era amigo da polêmica, do espetáculo, dos holotofes.
No terreiro, no teatro, na imprensa, Joãozinho da Goméia
era uma estrela.
Foi
com talento, sorte e inteligência que o jovem pai-de-santo
baiano, nascido na cidade de Inhambupe, conseguiu vencer todos os
preconceitos e se transformar no babalorixá mais famoso do
país, durante as décadas de 1950 e 1960. Primeiro,
ele se estabeleceu em Salvador, na Rua da Goméia, em São
Caetano, de onde veio o apelido. Depois, fundou uma filial na cidade
de Duque de Caxias. Lá, ganhou o apelido de "o rei do
candomblé". Sua clientela incluía artistas, autoridades,
pessoas da alta sociedade carioca. Dizem que até presidentes
da República, como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek
estavam na sua lista de amigos e clientes. Além dos amigos
poderosos, a personalidade forte de Joãozinho e seu talento
para o espetáculo começaram a atrair as atenções
da imprensa. Ele saiu diversas vezes na revista O Cruzeiro, a publicação
mais importante da época.
A
fama trouxe prestígio e uma vasta clientela, que lotava seu
terreiro. Ao mesmo tempo, porém, Joãozinho da Goméia
colecionou desafetos. Sua maneira de agir, muitas vezes transgressora,
batia de frente com os puristas das religiões afro-brasileiras,
que exigiam um comportamento mais discreto do babalorixá.
Além disso, pairavam dúvidas sobre sua iniciação
no candomblé que, segundo alguns, não teria sido feita
conforme a tradição. Mesmo com o estrondoso sucesso
no Rio, Joãozinho não mantinha uma boa relação
com as casas mais conhecidas de Salvador. Isso pode ser explicado,
em parte, porque a maioria das casas baianas mais conhecidas é
da nação jeje-nagô, enquanto Joãozinho
era da nação Angola. Há uma certa rivalidade
entre as duas correntes religiosas. Dos terreiros mais famosos de
Salvador atualmente, apenas o do Bate Folha é da nação
Angola.
Mesmo
os babalorixás (pais-de-santo) e ialorixás (mães-de-santo)
que não simpatizavam com a sua figura, porém, têm
hoje que reconhecer: Joãozinho da Goméia foi o grande
responsável pela expansão do candomblé no Sudeste
do país, a partir da década de 1950. Ele formou milhares
de filhos-de-santo, que criaram novos terreiros em São Paulo
e no Rio de Janeiro. Essas casas de candomblé apresentam-se
orgulhosamente, ainda hoje, como fazendo parte do "modelo Goméia",
ou da "raiz Goméia". A verdadeira Goméia,
porém, não existe mais. Depois da morte de Joãozinho,
em 1971, tanto o terreiro baiano, no bairro de São Caetano,
como o terreiro fluminense, de Duque de Caxias, foram extintos.
O caboclo Pedra Preta, a entidade mais famosa incorporada por Joãozinho
da Goméia, ficou sem um sucessor à altura
Enviada
pelo internauta Osíris Santos
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